sábado, 13 de dezembro de 2025

OS NÚMEROS DA FÓRMULA 1

 
"Oi, é da empresa de adesivos? Obrigado pelo lote de números 3 que vocês 
mandaram, mas agora vamos precisar de um só com o número 1, pode ser?"
 
 
Como se nada tivesse acontecido, decidi postar de novo aqui depois de anos e anos de ostracismo. 

O que me levou a sair da caverna foi o campeonato conquistado pelo Lando Norris na F1, porque pela primeira vez em 5 anos teremos um novo número 1 na categoria. 

Sempre achei os números da F1 algo meio fascinante — nos joguinhos de F1 sempre escolho o 28, que ficou "imortalizado" pelo austríaco Gerhard Berger — então decidi escrever isso aqui mesmo sabendo que ninguém vai ler, talvez só pra registrar algo que eu talvez curta ler de novo algum dia. 

As regras que definem o número de cada piloto na Fórmula 1 já variaram muito ao longo dos 75 anos de história da categoria. De 1950 até 1973, os números eram atribuídos pelos organizadores de cada evento, gerando uma aleatoriedade generalizada. 

Aí, ao longo de 1973, começou-se a tentar definir um padrão de numeração. A ideia era que o campeão usaria o número 1 e seu companheiro de equipe o 2. Aí, os pares de números subsequentes seguiriam a ordem de classificação do campeonato de 1972. Ou seja, Emerson Fittipaldi, campeão de 1972, seria o número 1 e seu companheiro de equipe, Ronnie Peterson, o 2. O 3 e o 4 ficariam com a próxima equipe do campeonato, a Tyrrell, e por aí vai. 

1973 ainda foi um ano de implementação dessa regra, e só a partir de 1974 é que ela se oficializou de fato, usando como base a classificação das equipes de 1973, o que significava que o novo número 1 agora seria Jackie Stewart, piloto da Tyrrell. 

Só que, em decorrência do acidente fatal de François Cevert na última prova da temporada, o campeão Stewart, decidiu se aposentar, e aí a equipe campeã (que foi a Lotus, e não a Tyrrell), adquiriu o direito de ter o 1 e o 2 nos seus carros, e Ronnie Peterson, mesmo não tendo sido campeão, passou o ano com o número 1 pintado no seu chassis. 

Mas foi também a última vez que isso ocorreu porque definiu-se de apenas o campeão da temporada passada teria o direito de usar o número 1 a partir de então. Para definir a numeração dos outros carros, seguiu-se a ordem de classificação das equipes em 1973, com a Tyrrell usando o 3 e o 4, a McLaren o 5 e o 6, e assim por diante. Quando pintasse o campeão do ano, sua equipe simplesmente trocaria os números que tinham pelo 1 e o 2. 

Isso significa que, se uma equipe não fosse campeã — ou não contratasse o atual campeão — estaria vinculada ad eternum com os números atribuídos em 1974. É por isso que a Tyrrell, que nunca mais teve um campeão ao volante, passou quase 20 anos com os mesmos números 3 e 4 nos seus carros. É por isso também que a Ferrari passou de 1981 a 1995 usando os números 27 e 28, com um único ano usando 1 e 2 em 1990, quando contratou o campeão de 1989, Alain Prost. 

Curiosamente, esses números que acabaram sendo tão emblemáticos na equipe de Maranello não eram os números “originais” da equipe pós 1974. A Ferrari corria com o 11 e o 12, mas em 1979, com o título do sul-africano Jody Scheckter, mudou para o 1 e o 2 no ano seguinte, passando o 11 e o 12 à Lotus (ou seja, é só por causa do Jody Scheckter que a clássica Lotus preta do Senna tinha o número 12. Não sabia dessa, né?) 

Em 1980, o campeão foi Alan Jones, da Williams, e com isso o 1 migrou para a equipe inglesa, jogando o 27 e o 28 para a Ferrari. E, como NINGUÉM conseguiu ser campeão pela Ferrari até a chegada do Schumacher, esses números ficaram em Maranello por décadas.

E, por falar na Williams, em 1992, o famoso “Red Five”, Nigel Mansell, finalmente conseguiu sagrar-se campeão mundial, dando a ele a possibilidade de utilizar um “Red One” no ano seguinte. Só que a Williams não renovou o contrato do inglês e fechou com o francês Alain Prost para 1993, o que significava que o 1 iria com Mansell para sua nova equipe. Só que ele decidiu dar adeus não só à Williams, mas à categoria como um todo, e foi testar a sorte na Fórmula Indy, nos EUA. Isso significava que, tecnicamente, ninguém na Fórmula 1 teria o direito de usar o número 1 em 1993.

A “solução” encontrada pela FIA? Dar à Williams os números 0 e 2. Prost ficou com o 2 e seu companheiro Damon Hill ficou com a um redondo ZERO estampado no seu carro, o que imagino não deve ter ajudando a aumentar sua autoconfiança ao longo de sua primeira temporada pilotando um carro decente. Mal sabia ele que não seria a última vez. 

Após papar o título de 1993, Prost também deixou a categoria e abriu caminho para a chegada de Ayrton Senna à Williams, o que de novo deixava a categoria sem o atual campeão em atividade. O resultado foi que Hill passaria por um segundo ano consecutivo como piloto-zero (aliás, no começo da temporada, a fornecedora Renault até tentou estampar seu logotipo em forma de losango no lugar do número no carro do inglês, o que sugeriria que NEM NÚMERO ELE TINHA. 

 
Damon Hill em 1994, na sua Williams número "Renault".

Felizmente, a FIA decidiu proibir isso e o pobre piloto conseguiu ao menos ter um zero no seu carro, o que só não é melhor do que nada porque, afinal, zero É nada. 

Enfim, em 1996, a FIA decidiu mudar o sistema de novo e, a partir daquele ano, os carros seriam numerados de acordo com a sua posição no campeonato do ano anterior. A regra do 1 e 2 ainda valia para o piloto campeão, e os demais números seriam um reflexo do desempenho de cada equipe no ano anterior. 

O que se sucedeu ao longo dos próximos anos foi, como esperado, que o número do piloto campeão sempre acabava sendo baixo porque, logicamente, as melhores equipes ficavam com os menores números. 

Só pra exemplificar, em 1996, Hill foi campeão com sua Williams de número 5, em 1997 foi Jacques Villeneuve com a Williams número 3, em 1998 foi Hakkinen com a McLaren 8 e, no ano seguinte, com a McLaren número 1, seguido por Schumacher com a Ferrari número 3 em 2000, e por aí vai. 

A chance de dar um campeão com mais do que um algarismo era praticamente impossível, só que, tanto em 2008 quanto em 2009, o título ficou com pilotos que usavam o número 22, o que não deveria fazer o menor sentido. 

E não faz mesmo. Isso só aconteceu porque, em 2007, o campeão foi Kimi Raikkonen, da Ferrari, o que teoricamente obrigaria a McLaren a correr em 2008 com o 3 e o 4. Só que esse também foi o ano do Spygate, em que a McLaren foi punida pela FIA por ter espionado a Ferrari e surrupiado documentos confidenciais de forma ilícita. 

Além de multas, a equipe perdeu todos os pontos conquistados ao longo do ano (os pilotos Hamilton e Alonso mantiveram seus pontos, mas a equipe zerou), o que em linhas gerais rebaixou a equipe à última posição do grid. Assim, ela correu em 2008 com os números 22 e 23, e foi com o 22 que Lewis Hamilton ganhou seu primeiro título mundial no Brasil (is that Glock?!) 

Aí, em 2009, o britânico levou o 1 para a McLaren e, enquanto isso, uma nova equipe estreava na categoria, a Brawn. Por ser a última equipe a ser inscrita, ela ficou com os últimos dois números disponíveis, justamente o 22 e o 23. Ninguém imaginava, mas esta seria a mais bem-sucedida campanha de uma equipe estreante na história da categoria, com Jenson Button levando o título após um começo de temporada avassalador por causa do revolucionário duplo difusor de seus carros.

O resultado é que, contrariando as leis da lógica, mais uma vez o improbabilíssimo 22 era campeão, justamente em um sistema numérico que tinha sido pensado para privilegiar a excelência das equipes. Vou dizer que eu pessoalmente achava esse sistema interessante, mas, como costuma ser o caso, a FIA não me consultou para saber minha opinião e decidiu mudar tudo de novo em 2014. 

A partir desse ano, cada piloto teria o direito de escolher um número para chamar de seu, e esse número o acompanharia independentemente da equipe em que estivesse correndo. O campeão ainda teria o direito de usar o 1, mas seria um direito, e não uma obrigatoriedade. Lewis Hamilton, por exemplo, optou por continuar usando o seu 44 mesmo como campeão mundial. 

Mas, depois de Hamilton, veio a era Max Verstappen, e algo muito interessante aconteceu com ele nesse quesito. 

O número que ele escolheu para si foi o 33. Quando foi promovido da Toro Rosso para a Red Bull em 2016, seu companheiro de equipe era o australiano Daniel Ricciardo, que tinha o número 3.  O que isso tem de interessante?

Tem que, desde que a F1 tem alguma forma de padronização numérica nas suas equipes, foi a primeira vez que uma equipe teve o “monopólio” de um único algarismo, o 3. Um 3 para o Ricciardo e mais dois 3 para o Verstappen. 

Isso nunca havia acontecido na categoria, Maluco, né?

Mas e se eu te dissesse que, por incrível que pareça, a mesma coisa aconteceu mais uma vez depois disso? 

Pois em 2021, Verstappen foi campeão e, diferente de Hamilton, optou por trocar o 33 pelo 1, como era seu direito. Só que seu companheiro de equipe na Red Bull agora era o Sergio Perez, que usava o número 11. 

Ou seja, mais uma vez a Red Bull tinha uma equipe “monoalgarísmica” (de acordo com o Google, essa palavra não existe, mas acho que deveria existir), com dois 1 para o Perez e um 1 para o Verstappen. 

É maluco pensar que isso só ocorreu duas vezes em toda a história da Fórmula 1, e foi justamente com o mesmo piloto. 

E mais maluco ainda pensar que isso, no fundo, não significa ABSOLUTAMENTE NADA.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

TODAS AS ESTRELAS EM CAMPO


Representação artística de como seria o uniforme canarinho se o Brasil realmente contabilizasse todas 
suas conquistas no futebol, incluindo o futebol masculino, o feminino, o de areia e o futsal.
 

Muita gente está revoltada com a CBF pelo fato de que, mesmo sem nunca ter levantado uma copa do mundo da FIFA, a equipe feminina de futebol do Brasil está jogando com cinco estrelas acima do escudo na camisa, estrelas estas que celebram os cinco títulos da equipe masculina nas copas do mundo (1958, 1962, 1970, 1994 e 2002).

De fato, as outras equipes da competição distinguem suas equipes femininas e masculinas no que diz respeito ao número de estrelas nas suas camisas. Por exemplo, apesar de a equipe masculina da Alemanha ostentar suas quatro estrelas, a equipe feminina conta com duas, referentes aos títulos de 2003 e 2007.

A equipe dos EUA, a mais bem-sucedida do torneio, conta com três estrelas e, em breve, deve incluir uma quarta em virtude do título praticamente certo deste ano. Já a equipe masculina joga com o escudo sem estrela nenhuma (algo que não deve mudar tão cedo).

Japão e Noruega têm uma estrela solitária cada e as atletas da Itália e Argentina jogam com uma camisa livre de estrelas – as equipes masculinas desses países contam com quatro e duas estrelas respectivamente.

Então o que ocorre com o Brasil? Curioso para entender se isso era de fato um menosprezo ao futebol feminino do Brasil e uma reverência ao que seria a Seleção de fato “importante” para a CBF – a masculina – fui lá no estatuto da CBF para ver se há alguma coisa lá que esclareça isso e tire a ideia de que trata-se de uma medida de cunho sexista.

Dá para baixar o estatuto em PDF no site da CBF e, apesar de uma marca d’água enorme com as palavras “EM REVISÃO” estar presente em todas as páginas, as regras aí explicitadas são o que valem até segunda ordem. Essa tal segunda ordem deve vir brevemente porque recentemente a instituição revelou que estaria revisando o clássico escudo, e o resultado foi isso que vemos aqui embaixo:

 

De modo geral, não foi muito bem recebido, tendo sido descrito pela internet como “torto”, “desequilibrado” e “incompleto”, entre outros adjetivos pouco elogiosos. Mas a apresentação de uma nova identidade visual explica o porquê do estatuto da CBF estar “em revisão” e indica que algumas das regras imutáveis na publicação podem estar sujeitas a mudanças.

Digo isso porque o Artigo 8°, que diz respeito ao escudo e estrelas, cita que:

“o emblema, com o formato já consagrado pelo uso, é azul com a borda amarela com um friso azul, cortado em cruz por duas listras verdes com frisos amarelos, contendo ao centro uma cruz de Malta branca, com a sigla CBF, sobre a haste horizontal da mesma cruz, em cor azul, figurando na parte
inferior a palavra Brasil em cor verde e na parte superior o número de estrelas representativas de conquistas de Campeonatos Mundiais, em cor verde.”

É possível que isso seja alterado no novo estatuto, mas, até que isso aconteça, o que vale é que, independentemente da seleção ser masculina ou feminina, as estrelas sobre o escudo devem sempre representar o “número de conquistas de Campeonatos Mundiais” da CBF.

Ou seja, como os meninos contam com cinco conquistas e as meninas com zero, tanto eles quanto elas devem jogar com cinco estrelas. MAS, caso o improvável aconteça e a seleção feminina consiga levar essa Copa do Mundo, aí tanto a equipe feminina quanto a masculina terão, obrigatoriamente, que jogar com SEIS estrelas sobre o escudo. Tá no estatuto.

Confesso que, quando li isso, fiquei um pouco aliviado pelo fato de que a seleção de futsal ou futebol de areia não são administradas pela CBF, mas sim pela CBFS e pela CBSB, respectivamente, porque se estas seleções também fizessem parte da CBF, o Brasil teria acima do escudo cinco estrelas pelas conquistas da seleção de futebol de campo, mais cinco pela equipe de futsal (isso sem contar outras duas de quando o campeonato ainda não era administrado pela FIFA) e mais cinco da seleção de futebol de areia, num total de 15 (ou 17) estrelas, o que deixaria o escudo da CBF parecido com o do Boca Juniors.

Felizmente, de acordo com o estatuto, estamos limitamos às conquistas da seleção masculina e feminina de futebol de campo e, até agora, isso significa “apenas” as cinco estrelas da seleção masculina. Mas, mesmo como fiel torcedor da Alemanha, confesso que eu gostaria muito de ver qual a postura da CBF caso as meninas levassem esta Copa do Mundo.

Será que a instituição incluiria essa nova estrela na camisa de Neymar e companhia lá no Catar? É o que o estatuto manda (lembrando que ele está SOB REVISÃO). Seria uma espécie de “cala-boca” geral para todos que – a meu ver com uma certa dose de razão – estão chamando a CBF de machista e sugerindo que a confederação não dá a mínima para o futebol feminino.

A CBF mostraria que liga sim para as atletas da seleção brasileira, e que liga tanto que não faz distinção entre as conquistas masculinas e femininas – é tudo título do Brasil e, como tal, deve ser celebrado tanto pelos homens quanto pelas mulheres.

Agora, só entre nós? Você honestamente acha que isso vai acontecer?